Somente uma mente tão fantástica quanto a da autora poderia ter a capacidade de transformar uma personagem tão simplória, pouco notada e sem nenhum atrativo aparente numa verdadeira "estrela".
O que Clarice via em Macabéa vai muito além de qualquer compreensão humana. A forma como ela descrevia a personagem e dava vida ao seu sofrimento, a sua dor. Parecia entender muito mais que a própria personagem todos os sentimentos que sua ignorância não lhe permitia entender.
Clarice não via pena na pobre e feia personagem, ao contrário, ela descrevia Macabéa com uma emoção e uma beleza, que somente ela conseguia enxergar.
Aos olhos da autora, Macabéa possuía um encantamento particular e sua pouca inteligência era descrita como uma certa ingenuidade que causava um certo mistério sobre a identidade da personagem.
Clarice nos leva a uma visão da simples personagem que ninguém parece enxergar, ou notar o sequer se interessar pela moça pouco notável.
Macabéa não sonhava, não possuía ambição, se conformava com o pouco que tinha e parecia não se importar tanto em entender a vida. Ela vivia como dava, como podia e também como sabia.
Ao ser cortejada por um picareta viajante, Macabéa pensa estar apaixonada por aquele simples Zé ninguém, mas experimenta um gosto amargo de frustração quando uma colega de trabalho rouba o seu primeiro e único pretendente. O único que havia demonstrado algum interesse pela sua humilde pessoa em todo a sua vida. Macabéa parecia ignorar seu sofrimento, ou simplesmente não se importar por não ter tido tanta sorte na vida.
Clarice mantém seus leitores curiosos até as últimas palavras de seu livro sobre o verdadeiro final da personagem, mas ela surpreende ao transformar os últimos dias de vida da pobre personagem numa linda e emocionante história.
"A hora da estrela" foi o último livro publicado em vida por Clarice Lispector e seu penúltimo romance.
Não deixe de apreciar essa magnifica obra da autora, com certeza você não terá motivos para se arrepender.
Segue abaixo os trechos mais marcantes de Clarice na minha opinião:
"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida." (pq. 9)
"Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?" (pg. 15)
"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." (pg. 18)
"Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias." (pg. 22)



